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Edição Atual
ED.59

Janaina Gomes e Karla Rady

Você sabe o que vai à sua mesa?

Verduras e frutas ganham cada vez mais espaço no prato do brasileiro preocupado com uma alimentação saudável. Mas a procedência desses alimentos e o alto índice de agrotóxicos põem em cheque sua qualidade e a saúde de quem os consome. Pesquisa recente da Anvisa comprova irregularidades e alerta para a gravidade delas para a saúde

A necessidade de suprir a crescente demanda da população pelos mais diversos gêneros alimentícios trouxe questões que devem ser avaliadas quando se fala sobre a saúde que vai à mesa. A produção de alimentos, seja ela in natura ou industrial, começa a ganhar a atenção das autoridades competentes, no que diz respeito à segurança alimentar. 
Foi divulgado no início deste mês dados do Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos de Alimentos, relativo ao ano de 2010, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Os dados são assustadores. De um total de 2.488 amostras de alimentos pesquisados, 63 apresentaram-se insatisfatórias (28) ou satisfatórias com algum tipo de resíduo (35). Foram dois os principais pontos detectados pela agência: presença de resíduos de agrotóxicos acima do permitdo e uso de agrotóxicos não autorizados para as culturas em questão. Além disso, a Anvisa estabeleceu  um ranking dos alimentos  mais contaminados, o número um, o pimentão, com mais de 90 das amostras comprometidas. Todas as amostras da pesquisa – pimentões, batatas, morangos, alface e cenoura, entre outras frutas, verduras e hortaliças – foram coletados em 25 estados mais o Distrito Federal. 
O diretor da Anvisa, Agenor Álvares, considerou o resultado preocupante “se considerarmos que a ingestão cotidiana desses agrotóxicos pode contribuir para o surgimento de doenças crônicas não transmissíveis, como a desregulação endócrina e o câncer”. Das 28 das amostras insatisfatórias, nas quais foram encontrados resíduos de agrotóxico acima do permitido ou não autorizado, 24,3 apresentaram agrotóxicos não autorizados para a cultura analisada; 1,7  apresentaram resíduos de agrotóxicos em níveis acima do autorizado; e 1,9 apresentaram as duas irregularidades simunltaneamente na mesma amostra. 

Hortifrutigranjeiros
Em Goiás a situação não é diferente. Os hortifrutigranjeiros que abastecem a capital também revelam uma situação preocupante. Segundo as análises das imagens de satélite da cidade de Goiânia, realizadas pelo engenheiro agrônomo Anatoly Kravchenko, mestre em Fotointerpretação de Imagem Aérea, existem mais de 110 hortas urbanas na capital do Estado, muitas delas comerciais e de grande porte. “Temos que imaginar como é feita a irrigação dessas hortas, tendo em vista que praticamente todos os córregos da cidade são poluídos”, explica. 
O problema foi repassado aos fiscais do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA-GO) e da Agência Goiana de Defesa Agropecuária (Agrodefesa), que constataram, além do problema da irrigação, o uso dos mais diversos inseticidas, fungicidas e herbicidas – alguns deles próprios para culturas de grande porte –, bem como a inexistência de engenheiro agrônomo responsável. “Cem por cento das culturas não possuem técnico responsável, os trabalhadores não utilizam EPIs (equipamentos de proteção) e o descarte das embalagens em locais inadequados são apenas alguns dos problemas”, revela Kravchenco. Com esta constatação, pelo menos em Goiânia a expectativa de que os alimentos vivos, ou seja, hortaliças, frutas, verduras e legumes sejam saudáveis, cai po terra. 

Falta de inspeção
Grande parte das hortas urbanas de Goiânia é invadida e margeia os córregos, onde deveriam ser áreas de preservação permanente (APPs). Estima-se que cerca de 80 das hortaliças produzidas nessas glebas são comercializadas nas feiras da cidade, 10 na Central de Abastecimento de Goiás (Ceasa); 5 em supermercados e outros 5 vão para os verdurões. 
Anatoly Kravchenco avalia que os produtores desconhecem os riscos. “Precisamos mostrar para as autoridades as consequências deste grave problema, que ocorre por falta de orientação e fiscalização dos órgãos competentes. Penso que não é por maldade dos produtores. Alguns alegam que utilizam poços artesianos e os mais esclarecidos tentam omitir a realidade”. 
Na recém estruturada Secretaria de Desenvolvimento e Turismo (SendTur) existe agora o departamento de Abastecimento Alimentar, coordenado por Luciano Rodrigues, que deve cuidar desta questão. Com a criação do regimento da nova pasta, foi incorporada uma Divisão de Orgânicos e Agricultura Familiar. “É uma iniciativa inédita na administração municipal; estamos começando o trabalho de mapeamento dos produtores e logo teremos como apresentar as políticas, inclusive com a criação de um Sistema de Inspeção Municipal para resguardar a produção e saúde da população”, destacou.

Agrotóxicos: um alerta á saúde do ser humano e do meio ambiente

Dados do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Agrícola (Sindage) apontam que mais de um bilhão de litros de veneno foram usados na agricultura em 2010, batendo recorde do uso de agrotóxicos. O mercado brasileiro de agrotóxico é o maior do mundo, com 107 empresas aptas a registrar produtos. Atualmente, representa 16 do mercado mundial e ocupa a sexta posição no ranking de improtação de agrotóxicos – a entrada desses produtos no Brasil aumentou 236 entre 2006 e 2007. A Organização das Nações Unidas (ONU) ainda aponta o Brasil como o principal destino de agrotóxicos proibidos para a maioria dos países, sendo que dez variedades que são comercializadas livremente por aqui estão banidas pelas autoridades sanitárias da União Europeia e dos Estados Unidos. 
Este uso indiscriminado já é considerado um problema de saúde pública. Segundo estimativa da Organização Mundial de Saúde (OMS), as doenças crônicas não transmissíveis – os agrotóxicos estão entre seus agentes causadores – são responsáveis por 63 das 57 milhões de mortes declaradas no mundo em 2008, e por 45,9 do volume global de doenças. Números estes que tendem a aumentar por volta de 15 até 2020, segundo previsão da OMS.  No Brasil, essas doenças já representam a principal causa de óbito, sendo responsáveis por 74 das mortes ocorridas em 2008, o equivalente a 893.900 óbitos. 
S.O.S
As dimensões dos problemas causados pelo uso indiscriminado de agrotóxicos não são conhecidas.  Apesar de ser pauta de muitos debates, a questão nunca alcançou a atenção que merecida. Sempre que abordados, estudiosos alegam que não se pretende a inviabilização da agricultura ou mesmo a redução da produtividade, apenas o equacionamento do uso do agrotóxico de forma que os danos para o meio ambiente e para a saúde sejam míninos. 
Tramita na Câmara Federal o Projeto de Lei 1811, de 2011, apresentado pelo deputado Amauri Teixeira (PT), que caracteriza como crime hediondo e inafiançável a produção, a comercialização, o transporte e a destinação de agrotóxicos e componentes em descumprimento às exigências legais.  

Intoxicação: perigo invisível 

O Brasil é um dos líderes mundiais em consumo de agrotóxicos e os trabalhadores (e consumidores) expostos são numerosos e diversificados. Normalmente, os sintomas de pessoas que sofrem com intoxicação alimentar se confundem com outras doenças, como as viroses. “Às vezes a pessoa vai ao médico sentindo-se mal, mas não sabe que está com sintomas de intoxicação. Isso acontece diariamente. Muitas famílias têm crianças e não sabem o risco que estão correndo. A água sanitária mata as bactérias, mas o agrotóxico?”, observa Kravchenco.  
Estudos revelam que a intoxicação por agrotóxicos tem efeito acumulativo no organismo e no meio ambiente, além de causar óbitos frequentes nas pessoas que lidam diretamente com os produtos químicos. Dores de ca beça, alergias, problemas hepáticos, renais e cancerígenos,verminoses, atrofia testicular; defeitos congênitos; e surgimento de novas doenças são os principais resultantes da intoxicação. 


 
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